A referência aos ventos do céu agitando o grande mar pode ser vista como um eco da cena primordial em Gênesis 1,2, mas aqui os ventos servem para instigar o caos, em vez de subjugá-lo. Daniel vê um mundo envolto em desordem. As bestas do mar, os tradicionais "monstros marinhos" (Salmo 74,13) e "a serpente do mar" (Isaías 27,1), são soltos no mundo. Especificamente, o caos assume a forma do governo gentio, expresso pelo esquema tradicional dos quatros reinos. Subsequentemente, somos informados de que "essas quatro grandes bestas são quatro reis que se levantarão sobre a terra", e de que, de novo, a quarta besta representa um "reino". Deve ficar claro que essa interpretação não exaure o significado da visão. Dá a referência das quatro bestas. Não fornece seu valor expressivo. A visão de bestas terríveis emergindo do mar não dá apenas informação factual de que quatro reis ou reinos se levantarão. Ela pinta um quadro desses reinos como erupções monstruosas do caos, de forma a comunicar um sentimento de terror muito além de qualquer coisa sugerida pela mera afirmação da interpretação. O impacto é mais profundo quando reconhecemos os matizes mitológicos da imagética. Os reis não são meramente humanos, mas manifestações da força primordial do caos. Como São Paulo diria: "nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra os principados e potestades."
COLLINS, John J. A Imaginação Apocalíptica - Uma introdução à literatura apocalíptica judaica. Tradução de Carlos Guilherme da Silva Majewski. São Paulo: Paulus, 2010, p. 153-154.
